
Brasil sobe posições entre grandes empresas que publicam relatórios de sustentabilidade, aponta KPMG Fonte: Abinee, 22/12/2025
Empresas brasileiras avançam na divulgação de práticas de sustentabilidade, mas a qualidade das informações abertas ao público é um desafio que ainda precisa ser enfrentado. Foi essa a conclusão de um recorte do estudo Rumo à Obrigatoriedade dos Relatórios de Sustentabilidade, publicado pela auditoria e consultoria internacional KPMG há 20 anos, bianualmente. O material traz um ranking de países cujas maiores empresas publicam relatórios de sustentabilidade, que contém suas práticas ESG (sigla em inglês relacionada a temas ambientais, sociais e de governança corporativa). São avaliadas as 100 maiores companhias de cada um dos 58 países que compõem o escopo do estudo.
O mais recente, divulgado em meados de fevereiro com dados de 2024, mostra que o Brasil saltou oito posições, do 27º para o 19º lugar, entre os mais transparentes em informações ESG. A pesquisa mais recente mostrou um aumento importante na adesão das empresas brasileiras à publicação desses relatórios, com 93% das companhias locais compartilhando suas práticas e resultados, uma alta de 7 pontos percentuais em relação ao ranking divulgado em 2023, com dados de 2022, quando o índice era de 86%.
É, ao lado do Chile (96%), um dos principais destaques da América Latina. Esse avanço coloca ainda o Brasil à frente de países como Nova Zelândia (92%), Portugal (91%), Paquistão (90%) e Suíça (90%), além de empatar com Noruega e Itália, que também alcançaram a marca de 93%.
A liderança do ranking foi dominada por países como Tailândia, Singapura e Estados Unidos, todos com 100% de empresas reportando suas práticas de sustentabilidade.No final da lista está a Venezuela, com apenas 10% de suas empresas divulgando relatórios.
Para Nelmara Arbex, sócia-líder de ESG para a KPMG nas Américas, os dados refletem uma crescente conscientização das empresas brasileiras sobre a importância da transparência nas práticas ESG. Ela reitera que os relatórios de sustentabilidade são boas ferramentas para mostrar o que as empresas e líderes estão fazendo, mas ressalva que o documento é apenas consequência de um trabalho interno das companhias.
“É preciso que esses relatórios sejam apoiados por sistemas de gestão e governança robustos para garantir que as informações divulgadas realmente reflitam a realidade das empresas”, pontua. Só assim, diz, conseguirão lidar com os riscos e oportunidades que surgem neste novo cenário global.
Na América Latina, o Brasil e o Chile se destacam, com mais de 90% das empresas fornecendo dados de sustentabilidade. No Brasil, esse desempenho reflete novas diretrizes e regulamentações, além de alinhamento do país com padrões globais, como a Iniciativa Global de Relatórios (Global Reporting Initiative – GRI) e o Conselho de Normas de Contabilidade de Sustentabilidade (Sustainability Accounting Standards Board – SASB).
Muitas empresas estão se antecipando às regulamentações sobre sustentabilidade, buscando maior transparência para atender às demandas de investidores e stakeholders. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM), por exemplo, passará a exigir a partir de 2026 das empresas de capital aberto informações ESG seguindo as normas IFRS S1 e S2 do International Sustainability Standards Board (ISSB). Elas precisarão ser divulgadas junto com as demonstrações contábeis e financeiras.
- Materialidade
Um dos resultados identificados é a ampla disseminação do uso da matriz de materialidade para identificar os impactos sociais, ambientais e econômicos mais relevantes para os negócios. Cerca de 92% dos relatórios das empresas brasileiras incluem a análise de materialidade. Globalmente, a média é um pouco menor, de 80%, considerando tanto o grupo das 250 maiores empresas do mundo quanto das 100 maiores empresas de cada país analisado. Na América Latina, a média das 100 maiores é 82%.
No mundo, a adoção da “dupla materialidade” – conceito que avalia tanto os impactos da empresa sobre a sociedade e o meio ambiente quanto o efeito desses fatores nos resultados financeiros – é uma das tendências mais fortes. Na América Latina, apenas 44% utilizam dupla materialidade.
Outro dado importante é que 75% das empresas estão buscando assegurar a veracidade das informações ESG por meio de auditorias externas (processo chamado de asseguração). Isso representa um crescimento de 9 pontos percentuais em relação à edição anterior, um sinal positivo de que a transparência e a confiança nas informações estão se tornando prioridades para o setor empresarial brasileiro.
“O Brasil vem melhorando em muitos pontos em nível de transparência e qualidade de dados, como, por exemplo, boa parte dos relatórios serem auditados, pelo menos nos temas relevantes”, comenta Arbex. “Mesmo assim, há desafios”, pontua.
Além disso, de acordo com a KPMG, 76% das empresas reconhecem a perda de biodiversidade como um risco (na edição anterior eram 68%) e 89% já estabeleceram metas para reduzir suas emissões de carbono.
Um dos desafios diz respeito à análise de impacto climático sobre os negócios. A pesquisa de 2024 revelou que menos empresas se aprofundaram neste tema em relação ao ano anterior. O levantamento apontou uma queda de 23 pontos percentuais na divulgação de informações sobre mudanças climáticas, um dos temas mais urgentes no cenário global, passando de 75% das empresas avaliadas em 2023 para 52% agora.
Apesar de o grupo de empresas avaliadas ser mutável, uma vez que são escolhidas as maiores daquele ano-base, a expectativa era que fosse um tópico mais disseminado entre as organizações em geral, dado os eventos climáticos extremos recentes e os relatos dos prejuízos para as empresas.
“Embora muitas empresas mencionam o impacto climático, poucas se aprofundam de forma adequada. Elas perceberam que o tema exige mais reflexão e ferramentas apropriadas, o que pode ter levado essas empresas a uma abordagem mais cautelosa”, explica Nelmara.
Para Nelmara, a COP30, que acontecerá no Brasil em novembro deste ano, será um momento importante para o país apresentar seus avanços em sustentabilidade. “Os dados sobre as empresas brasileiras são essenciais para mostrar, não apenas como o Brasil lida com as emissões de gases de efeito estufa, mas também como se posiciona em relação à economia de baixo carbono”, comenta.
Cita que, no Brasil, as empresas estão cada vez mais conscientes da necessidade de integrar práticas sustentáveis em suas operações, destacando o avanço em áreas como combustíveis mais limpos, como etanol e biodiesel, mas alerta para o papel crucial do agronegócio, um dos maiores emissores de carbono no país. “O agronegócio precisa se preocupar com sua relação com os recursos naturais e com a biodiversidade. O compromisso com a regeneração de ecossistemas deveria ser um foco central”, afirma Nelmara.
Além disso, ela enfatiza a importância das grandes empresas ajudarem sua rede de parceiros e fornecedores a adotar práticas mais sustentáveis. “As grandes empresas possuem uma enorme influência no mercado e, por isso, têm a capacidade de pressionar e apoiar sua cadeia de valor a adotar ações mais sustentáveis”, diz Nelmara. A opção por avaliar as maiores é, inclusive, pautada nesta premissa.
- Relatórios, em geral, melhores
Outra pesquisa divulgada recentemente fez um detalhamento do conteúdo dos relatórios de sustentabilidade apresentados por empresas brasileiras em 2024. Chamado de “Reporting Matters Brasil”, o material está na segunda edição e foi desenvolvido pelo Conselho Empresarial para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), com o apoio do Grupo Report e a idealização da Radley Yeldar e do World Business Council for Sustainable Development (WBCSD). Ao todo, foram avaliados 74 relatórios de sustentabilidade.
Entre os principais resultados, está o de que, dos 16 critérios avaliados, 15 tiveram aumento de pontuação, com destaque para “estratégia”, cuja nota passou de 6,9 em 2023 para 8,3 em 2024; “materialidade”, que subiu de 5,8 para 7,2 no período; “equilíbrio”, saltando de 6,1 para 7,1; e “metas”, que alcançou 7,4 ante 5,6 no ano anterior.
Segundo Estevam Pereira, sócio do Grupo Report, destacou no documento, chama a atenção a melhora da qualidade geral dos documentos. “Os relatórios corporativos produzidos no Brasil estão mais abrangentes, equilibrados e consistentes.” As novas legislações, citadas também pela KPMG, são, na opinião do executivo, uma das principais fontes de pressão para esta evolução.
O CEBDS também reitera a importância de o relatório de sustentabilidade ser uma ferramenta de prestação de contas e mensuração das práticas e impactos socioambientais. ‘Eles permitem apresentar, de maneira organizada, as iniciativas realizadas, os resultados obtidos e os obstáculos enfrentados, fortalecendo a confiança e a credibilidade empresarial.
Dentre os 25 temas materiais mais frequentemente abordados nos documentos, compliance é o primeiro, estando presente em 78% dos relatórios como tema material. Mudanças climáticas e estratégia climática vem em seguida, constando em 73% das matrizes de materialidade das organizações brasileiras. Saúde, bem-estar, segurança do trabalho e condições de trabalho é o terceiro, presente em 70%.
Por outro lado, os itens menos citados como materiais, com 12% de presença em ambos são: emprego e salário digno, remuneração e práticas, relações e direitos trabalhistas; e desmatamento, conservação do solo, boas práticas agrícolas, manejo florestal, agricultura sustentável e práticas regenerativas. Práticas de direitos humanos e cibersegurança, privacidade e proteção de dados ficam em terceiro entre os tópicos menos materiais para as empresas.
Ainda segundo a pesquisa do CEBDS e Report, dos 74 relatórios avaliados, 40 consideram dupla materialidade, 26 apenas impactos internos ou externos, e oito não declaram os processos. A maioria (54%), usa entre seis e dez temas materiais. Apenas 14%, porém, colocam os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), da ONU, como prioritários e só 12% definiram metas claras ligadas aos ODS. No documento são avaliados alguns estudos de casos.
As publicações alertam, porém, que é fundamental que as empresas não apenas publiquem relatórios, mas garantam que as informações divulgadas sejam de qualidade e reflitam o real impacto de suas ações no meio ambiente e na sociedade.
